Joaquim José da Silva Xavier: Recorte biográfico e repercussões históricas

Exposição ante o Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, em defesa do Patrono da Cadeira 5, realizada pelo advogado Wainer de Carvalho Ávila

Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) – Foto: Divulgação

1 – PRÓLOGO

Nesta manhã ensolarada de 08 de abril de 2.018, diante deste Plenário do IHG-SJDR, contemplo uma sociedade brasileira conturbada por tantos e tão tristes acontecimentos, onde forças sociais se digladiam quanto e contra um projeto de nação para o Brasil. Nenhuma novidade, então, já que vou me referir aqui aos esforços históricos que desde a Colônia buscou-se quebrar os grilhões que ataram e atam o desenvolvimento socioeconômico deste país. Desde ser colônia do reinado Português até se inserir ainda hoje como provedor de raw materials num mundo globalizado e dominado pelas grandes potencias, quase imperiais, em uma economia de mercado imperfeito, capitalista.

O olhar aqui se volta para o Brasil do Século XVIII e peço licença para usar essa tribuna para fazer um louvor ao Patrono da Cadeira 05 para a qual fui eleito. Para saudar a memória de um lutador pela liberdade, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, conforme exponho a seguir.

2 – DESENVOLVIMENTO

No dia 12 de novembro do ano de 1746, ungido pelas águas do Rio das Mortes, filho de Antônia da Encarnação, das terras de São José del-Rey, e protegido pelo braço forte do pai luso Domingos, vem à luz a história de uma criança, igual a todas as outras crianças, mas que balbuciava LIBERDADE, depois pronunciava LIBERDADE, e já prenunciava a liberdade da então colônia escravizada. Peço-vos licença e vênia para elevar em alta voz nesta sessão solene deste magno Instituto, sob a batuta do preclaro presidente Paulo Roberto Sousa Lima, em uníssono brado de civismo, a toda a nação brasileira, a mensagem da Fazenda do Pombal do Rio Abaixo.

Uso para tanto o único documento que nos restou da pilhagem, da selvageria da gente europeia e que atesta a existência do Alferes Tiradentes, já que não temos sua identidade civil de um nacional, condição que só é conferida ao cidadão de um país laico, pelo ato registral civil. Dou-vos, eminentes confrades e insignes convidados, o inteiro teor de seu assento de batismo, em livro sacro da Comarca do Rio das Mortes, hoje na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, pois vendido que foi em 1936 sem objeção de nossas autoridades, muito particularmente as eclesiásticas, que estão caladas há mais de 80 anos:

“Paróquia da Catedral da Basílica de N. S. do Pilar de São João dell-Rey – Diocese de São João D’El-Rey. Livro para servir de assentos dos baptizados da freguesia de N. S. do Pilar da Villa de SJ. D’El-Rey, 1742ª 1749, folha 151: “Aos 12 dias do mês de novembro de 1746 annos, na Capella de S. Sebastião do Rio Abaixo, o revendo Pe. João Gonçalves Chaves, Capellão da dita Capella, baptizou e poz os santos óleos a Joaquim, filho legítimo de Domingos da Silva Santos e de Antonia da Encarnação Xavier; forão padrinhos Sebastião Ferreira Leitão e não teve madrinha, do que fiz este assento, o coadj. Jeronymo da Fonseca Alvarez” (1).

É este documento, certamente o mais importante de nosso acervo histórico, uma mensagem de confiança no futuro do país e que brota na voz, outrora abafada pelo algoz europeu, em um rincão vilipendiado pela crueldade régia do invasor, mensagem do mago e do herói, do mártir e do líder redivivo, mensagem do Alferes de Cavalaria Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Importante repetir que no Segundo Império era palavra de ordem escamotear os grandiloquentes atos sediciosos de Vila Rica, São José D’el-Rey e São João D’el-Rey e pouco temos feito para anular a campanha sistemática contra Minas e seu filho maior, o Alferes Xavier. Os famigerados “Autos da Devassa” só foram localizados 80 anos depois da sentença de degredo e morte juntamente com a “Constituição (Americana) em Francês”, livro de bolso do injustiçado Alferes, em surrados sacos de linhagem, informa Mello Moraes, do Arquivo Público. Mais oito décadas se passaram até cair o manto de silêncio que encobria os processos dos réus padres e graças aos Deuses o Banco do Brasil os arrematou em Casa de Leilão de Londres em meados do Século XX.

Belas palavras vêm sendo ditas e páginas pungentes escritas, todavia nihil novi sub sole e resta-nos apenas dizer, como o faço neste ato solene e magno, Senhor Presidente, em quem depositamos esperanças de um IHG corajoso e altruísta, que Tiradentes, não um policial, mas um militar profissional do Exército, é o injustiçado do continente americano e a Fazenda do Pombal um sítio abandonado pelos poderes da República, como o é a “Capela de São Sebastião” descrita no assento de batizado, que ninguém jamais soube onde fica, a exemplo do “Capão da Traição” dos Emboabas, primeira manifestação de soberania nacional e jamais pesquisado por este Instituto” . É possível existir sentimento de pátria em tão esdrúxula situação? Eis a pergunta que não quer se calar, Senhores Confrades e Senhor Presidente.

É neste ato de calor cívico que parece-nos ouvir, como se nos fosse concedida a faculdade de retrotrair no tempo, o riso da criança embalada no regaço materno e o tossido tísico do jovem libertário na masmorra do Rio de Janeiro. Feliz o povo que pode doar-se em reverência a fatos históricos grandiosos, heróis e árcades, santos e estetas que se doaram em favor de valores tão expressivos de patriotismo. Pois Joaquim José, o Alferes Libertário Xavier, foi um destes e, hoje, com emoção cívica, estamos a fazer-lhe a justiça que, por quase três séculos, lhe foi negada. Somos nós, seus irmãos de nascimento, com dignidade e força espiritual, todos os herdeiros deste legado imensurável, que é a pujança da brasilidade a impor-se no cenário internacional político, social e econômico.

Tiradentes foi um daqueles homens que, segundo seus confessores Freis Raimundo Penaforte e José Maria do Desterro, estão acima dos humanos comuns e além do que o homo medius representa. A revolução da Nova Inglaterra e a derrama se irmanam em valores e os motivos da sedição são os mesmos . Incorreto, porém, é usar o termo ou o vocabulário “imposto” é o que sentimos hoje neste infeliz país, pois entregamos a corruptos mandatários mais do dobro do que nos assaltava a “derrama” do algoz invasor e conquistador europeu.

A rebeldia não se restringia à capitania e nossos bens e nossa honra eram conspurcados em nome do absolutismo. Nossa história, pouco analisada, diz que dos Emboabas aos Conjurados há uma ponte muito forte de ideias e ideais. Nunes Vianna (2) foi o primeiro governador aclamado da América, quiçá no mundo, à época, e entre ele e Tiradentes medeiam oito décadas de amargura, roubo, e escravidão em que se conservou vivo o sentimento de liberdade sendo poético lembrar que Minas não teve infância e como capitania não foi hereditária. Seus segredos, muitos, morreram com líderes maçons, ou com padres maçons e não poderia ser de outra sorte, pois o movimento é o mesmo da revolução francesa. Os cognomes de Joaquim eram “o Gramaticão, o corta-vento, o República”. O grande libertário não é só mineiro. É muito maior. Talvez nem só brasileiro, mas o prolongamento espiritual de uma saga que abrangia todo o mundo ocidental. Pensadores franceses estavam em nossas bibliotecas que sustentam viagem do brasileiro, com toda segurança, basta ler a correspondência de Jefferson a John Jay, o primeiro em Versailhes, o segundo em Catonah, lugar que visitei há pouco, nas cercanias de Manhatan, na John Jay Homestead, e pude medir o que se tramava entre dois mundos, o velho e o novo, tudo igual ao Brasil. Em Nova Iorque conversei a este respeito com o estadunidense Hamilton Fish, descendente do herói da independência das 13 colônias, parceiro e confidente de Jefferson e Washington, o Secretário John Jay.

Waldemar de Almeida Barbosa, (3) que orna e honra este recinto de estudos e pesquisas históricas, em prefácio ao livro “Tiradentes Face a Face” da extraordinária historiadora Isolde Helena Brans, diz textualmente que existem dois Tiradentes: um criado pelo culto e talentoso Joaquim Norberto, em face do medo do Clube Revolucionário, semente de várias outras manifestações nacionais, criado no Rio de Janeiro por volta de 1970 (4). Teve Manifesto firmado por 58 expressivos líderes e pretendeu erguer ali uma estátua a Tiradentes como mártir do ideal republicano. Outro. Construído pelo Imperador que tinha prestígio internacional e a campanha de desmoralização do líder do Pombal do Rio Abaixo surtiu efeito devastador e até hoje autores de nomeada o seguem, a exemplo de Kenneth Maxwell, em a “Devassa da Devassa”, que, porém, adverte que o Brasil precisa respeitar o Tiradentes pois não dispõe de outros líderes de sua envergadura (5). Reputo isso um tapa de luva no rosto de autores pouco respeitosos a exemplo de Eduardo Frieiro, Afrânio Peixoto, Capistrano, Afonso Arinos, Pedro Calmon e Gilberto Alencar.

Mas é nossa obrigação como conterrâneos do herói e mártir do Pombal assumir sua defesa, ao lado de Rodrigues Lapa, Camilo Castelo Branco e de nossa confreira Isolde Brans que sustentam viagem do brasileiro a Lisboa e sul da França em encontro com o libertador e embaixador Thomas Jefferson. Diz Almeida Barbosa “o Brasil é o único país da América em que existe, há mais de um século, uma campanha sistemática de desmoralização do precursor da Independência”. Exorto, neste ato cívico, que ainda é tempo de conhecer o verdadeiro Tiradentes e sustentar seu alto valor, já que sem ele o Brasil, permita-me o lamento em lágrimas fica a dever a história universal a existência de um verdadeiro líder. Não fomos feitos para nossa incúria e acomodação. O Pombal continua espoliado, hoje com uma malsinada e entreguista ferrovia do aço, que nos deixa buracos e doa a potências hegemônicas nosso subsolo. Aqueles trilhos e suas imensas composições ferroviárias passam em viaduto por cima a fazenda onde nasceu Tiradentes. A exemplo disto esta casa, confrades, precisa reagir contra a doação da Escola de Comércio Tiradentes (para uma instituição educacional privada de…) Barbacena; a venda do livro de batizado de Tiradentes que está aos pedaços na Biblioteca Nacional; as folhas arrancadas grosseiramente, no Arquivo Público Mineiro de nossa ata de elevação a Vila; o registro civil de Tiradentes que o poder judiciário nos sonega; o Capão da Traição apenas visto como lenda; a data correta da nossa fundação pelo Guarda-Mor Portes D’el-Rey e o que me parece ser o cume do (des)respeito à história: a (não) edificação do Memorial da Liberdade em projeto da lavra de Oscar Niemeyer; a venda criminosa do templo de Matosinhos, do Século XVIII a banqueiro paulista, denunciada ao Ministério Público por este IHG em 2003 e até hoje engavetado na Justiça.

3 – CONCLUSÃO

Senhor Presidente, com a presença do Prefeito da respeitada e veneranda Tiradentes, autora, neste ano, da Comenda Libertas et Civittas, que em 2011 propus criar, digo que V. Exa. tem missão assaz difícil, porém, a se cumprir, merecerá estátua em praça pública. Parceria com São José D’el-Rey e Ritápolis foram um grande avanço, porque não somarmos com todos os municípios sócios da Associação dos Municípios dos Campos das Vertentes em grande cruzada contra a decadência que parece rondar nosso futuro, eis a questão. Nossa cidade tem sido espoliada e perdido muito de seu acervo e sua história, cabe-nos assumir o grande compromisso com a História, recuperar, manter e preservar nosso patrimônio, que não dá duas safras.

IHG-SJDR/WA/abril/2018.

4 – REFERÊNCIAS

  1. Transcrição do registro em inteiro teor conforme consta, em frangalhos, no livro Sacro adquirido e mantido na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro;
  2. Sobre Nunes Vianna, ver SOUSA LIMA, Paulo R. “O Papel do Português e Emboaba José Matol nas origens de São João del-Rei”, defesa de patrono da Cadeira 02, IHG-SJDR, outubro/2016;
  3. Revista do IHG-SJDR, vol. VII, 1992, Edição comemorativa dos dois séculos da execução de Tiradentes, com artigos de Sebastião Oliveira Cintra (cita estudos de Basílio de Magalhães e Eduardo Canabrava Barreiros); Antônio Gaio Sobrinho, Waldemar de Almeida Barbosa, José Alberto Ferreira, Yves G. F. Alves, Geraldo Guimarães, Maria do Rosário de Pompéia, Luiz de Melo Alvarenga, Lucia Casas de Pilla e José Claudio Henriques.
  4. BRANS (VENTURELLI), Isolde H. “Tiradentes Face a Face”, com prefácio de Waldemar de Almeida Barbosa, referido na Revista do IHG-SJDR, apud, e artigo “Tiradentes Face a Face II”, Campinas, UNICAMP, 2003;
  5. MAXWEL, Kenneth, “Devassa da Devassa”, RJ, Paz e Terra, 1978;

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