Muito Gentil, o Palhares…

Gentil Palhares – Foto: Retirada de www.saojoaodelreitransparente.com.br / Divulgação

Sendo o saudoso Gentil Palhares meu patrono no Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, recebi com muita satisfação o pedido do confrade Paulo Sousa Lima, presidente dessa Instituição, no sentido de escrever algumas linhas sobre aquele que nos legou tantas e tão belas recordações dos pracinhas do 11 RI nos campos da Itália, onde cobriram-se de glória na defesa da Pátria, maculada que foi pelos torpedeamentos de nossos navios no Atlântico, durante a Segunda Grande Guerra.  

Dizia o Paulo que tinha ouvido de um outro confrade nosso, o Passos de Carvalho, que nosso Gentil adorava a música “Luar do sertão”, cuja letra é atribuída ao grande compositor Catulo da Paixão Cearense. Aquela que tem por estribilho:

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

            Instigado por essa informação, inédita para mim, pensei em como seria legal descobrir a origem dessa preferência toda, enriquecendo assim o conhecimento geral a respeito daquele que foi um dos fundadores do IHGSJDR.

            Não tendo como perguntar a quem soubesse tal origem (se é que, porventura, existisse esse alguém), a tarefa parerecia-me quase impossível, diria que digna de configurar o “13º Trabalho de Hércules”.  

Ó que saudade do luar da minha terra
Lá na terra prateando folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar do meu sertão

            Navegando pela letra do Catulo, comecei a pressentir uma Epifania, a descoberta do Fio de Ariadne que me levasse à resposta desejada. Não era ainda uma formulação consciente; mais parecia um eco vindo de outra esfera…

Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão
A gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia a nos nascer do coração

            Lembrei então que o Palhares era espírita. Deixei-me levar por essa recordação, ao sabor, aroma e visão exalados pela Paixão do Cearense…

Coisa mais linda neste mundo não existe
Do que ouvir um galo triste no sertão que faz luar
Parece até que a alma da lua é que descanta
Escondida na garganta deste galo a soluçar

            Enfeitiçado pela poesia dessa letra e quase adormecendo, lembrei também que o Gentil era natural de Formiga, cidade enfiada lá no sertão profundo, na ótica daqueles tempos antigos para quem, como ele, morava em São João del-Rei.

Ai quem me dera que eu morresse lá na serra
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez
Ser enterrado numa cova pequenina
Onde à tarde, a sururina chora a sua viuvez.

            Bingo! Vi o Palhares viajando no Trem do Sertão, lá pelos idos de 1950, de encontro ao seu berço formiguense, aboletado num assento ao lado da janela do vagão, com um violão nas mãos, a cantar a música. Na verdade, era ele mesmo a me dizer e mostrar: tudo isso; que, como bom espírita, tinha dado uma escapadinha lá dos Campos Elísios, para me contar a razão de sua paixão por essa música. Acordei. Com um sorriso escancarado no rosto, resultado desse sonho tão real. Como foi Gentil, o Palhares!!! Veio lá do Palácio Celeste, só para me revelar mais esse pedaço de si, mais uma pérola a adornar sua biografia, da qual sou fiel depositário…

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